Incêndio

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Ao ler esse texto, ouça “Como Eu Quero” – Kid Abelha.

  Você é insistente e isso me irrita, tipo, muito. Porque se eu digo não, é não. Essa de persistir em mim só vai te levar a conseguir o que quer: eu. E eu resisto enquanto posso. Faço-te de gato e sapato, brinco de Mulher Maravilha, te desprezo sem dó nem piedade. Ajoelha, beija meu pé, dá a patinha. Não que eu seja insuportavelmente dominadora. Apenas adoro assistir sua decadência e saber que sou eu o motivo dela. Saber que o cara mais conquistador cai aos meus pés, enquanto eu dou de ombros, me arranca boas risadas. Porque, meu bem, se eu sou a única coisa que você quer e não pode ter, eu quero, por um bom tempo, continuar sendo. Não que eu torça contra. Preciso continuar me mantendo no posto de “uma das coisas que você mais quer”, entende? Se é capricho, dane-se. Eu não sou o seu?

Você é gasolina. Altamente inflamável. Eu sou pólvora. Nós dois, juntos, representamos nada mais, nada menos que um grande perigo. Então, deixe-me quieta. Afaste-se de mim. Desiste, vai. É bem mais aceitável ouvir que você desistiu a ter de assumir que eu não resisto, que eu quero e não é pouco. Capricho por capricho, que vença o meu. Pois, se te conheço bem, assim que eu me render, seu sonho de consumo passará a ser outro e eu não abro mão de ter esse título.

Eu te odeio e não faço a menor questão de esconder. Você me causa ódio e desejo, na mesma proporção. Então, cai fora. Saia espalhando que eu sou muito difícil e que, mesmo você fazendo tudo que estava ao seu alcance, eu não dei a mínima. Ou simplesmente saia, em silêncio. Só não queira saber o perigo que somos juntos. Só não queira imaginar o incêndio que causaríamos. Meu medo não é o incêndio, é virarmos cinzas. Deixa pra lá. Deixe-me.

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Nas nuvens do nosso edredom

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Amanhã, quando eu acordar, esteja aqui na minha cama, como se nunca tivesse estado em outro lugar. Continue adormecido, deixe-me admirar seu jeitinho de bebê para dormir. Deixa eu te fazer cafuné e esfregar minha pele de seda na sua barba por fazer e, se acordar, permaneça de olhos fechados, fingindo não saber que está sendo cuidado. Dê um pulo, me assuste e me sufoque com beijos, me faça desistir da praia, do shopping, do salão às duas, para continuar aqui.

Uma hora é pouco para eu entender o que aconteceu, eu sei. Nem esses meses me fizeram compreender. Ok, eu fico. Há muita coisa para entender ou desentender de vez.

“Só precisava provar para mim mesmo que eu não sei viver sem você. E consegui. Porque, caso contrário, eu não estaria aqui. Precisava mostrar que não era apenas impressão minha que você é a mulher da minha vida e que nenhuma outra vai conseguir unir tanta pureza, sensualidade, um pouco de Lispector e Madonna, de doçura e essa pose de brava e corajosa que nem as mulheres de 30 têm. Precisava notar que garota alguma conhece a riqueza que há em Leminski, nem saberá deslizar a ponta da caneta no papel e encantar, escrever, compor, descrever, decompor um amor e recompor uma canção, como você.

 E mais que qualquer outra coisa: eu precisava saber se essa moça tão solta, tão dona de si mesma, tão leve, mesmo nascendo para ser livre, ia querer voar ao meu lado. E isso, eu descobri a cada texto dramático no blog, a cada indireta nas redes sociais e a cada música de recém solteira que você postava. Eu fiz falta, eu sei. Voa comigo, porque essa história de ter os pés no chão não está com nada.”

Entender é o exercício de esperar que as coisas se expliquem. E o amor, ah o amor! Esse é inexplicável. A partir de hoje, substituo a palavra “andar” por “flutuar”.

Jantar de despedida

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Eu te liguei. Dessa vez não quis esperar o cavalheirismo de você me procurar. E você me atendeu com aquela voz cansada de quem acabara de sair de uma partida de futebol. Estranho, não me recordo de ter lhe chamado para nada depois do futebol e você aceitar. Marcamos no restaurante do primeiro encontro e não muito tarde, porque eu tinha aula no dia seguinte.

Cheguei 15 minutinhos atrasada, fiquei na dúvida entre um peep toe e uma ankle boot. Ambos combinavam com a roupa. Nem precisa ligar para saber que mesa você tinha escolhido. Era a mesma. Sempre aquela embaixo do ar condicionado e dois sucos de laranja. “Nossa, você tá linda. O que você vez no cabelo?”. Sim, você sabia me agradar.

O meso prato da primeira vez que estivemos ali. Faculdade, família, escola, minha roupa, seu cachorro que estava doente. Papo vai, papo vem e acabamos entrando no assunto do nosso namoro. A retrospectiva que fizemos daqueles oito meses, foi bem mais detalhada que aquela que a Globo faz todo final de ano. Minha risada escandalosa chamou a atenção de todo o restaurante. Ah, eu amo o petit gateau daqui. E amo ainda mais dividí-lo com você.

E na metade da sobremesa, deixei escapulir: “já não dá mais”. Você tinha certeza que eu não estava falando do petit gateau. Era sobre nós dois. Concordávamos, tínhamos certeza que seria desgastante dali pra frente. Viveríamos a partir daí caminhos individuais. Ei, você passou para a faculdade dos seus sonhos. Não havia espaço para uma crise de choro depois dos mais maravilhosos oito meses das nossas vidas.

Pagou a conta e trouxe balinha para mim. Você nunca deixou de ser cavalheiro. Nunca. “Eu te levo em casa”. Não haveria motivo para recusar, eu nunca recusei, nem após nossas discussões. Chegamos no portão. “Adeus?”, você me perguntou de longe. E eu disse tchau. Demos um passo, apenas um passo e nos beijamos da forma mais suave, doce e apaixonada de todos os tempos,

Para não restar dúvida, você afirmou: “Terminamos. Nós precisávamos tomar essa decisão“. Respondi balançando a cabeça com o sim mais confuso que já pude dizer. Acabou.